Por Natividade Augusto. Socióloga. Pós-graduada em SST. Pós-graduada em sistemas de gestão. Especialista certificada security. CEO PROATIVO, Instituto Português. Diretora-Geral da Revista Segurança Comportamental (14-abril-2020)
O mundo conheceu Portugal e os portugueses como exemplo a seguir na fase de "resposta" a Covid-19. Não somos os “suecos do sul”, como nos chama a imprensa internacional, porque somos bem diferentes, aliás, bem melhores! Somos melhores porque somos disciplinados quando a ameaça é interna e quando ameaçam os nossos, como os povos do norte da Europa, mas somos mais do que isso, a disciplina não nos ofusca o pensamento crítico que conduz à inovação, as ideias relâmpagos e reações rápidas, características dos países do sul da Europa. Somos também humildes e solidários com os nossos, com quem partilha os nossos desafios e com quem se junta a nós. Provámos tudo isto na fase de “resposta” ao Covid-19: os portugueses e as instituições portuguesas antecipam-se às medidas de contingência promovidas pelo Governo; as medidas do Governo foram umas das mais cedo aplicadas; a ciência supera-se com a conceção de ventiladores e testes; a indústria adapta-se na conceção de EPIs; entre outros.
Já percebemos como funciona a fase de “resposta” ao Covid-19. Já percebemos que as medidas de proteção implementadas serão para continuar até ao surgimento da vacina. Precisamos de perceber que temos que nos preparar para a fase de “recuperação” da economia, caso contrário “se não morremos da doença podemos morrer da cura”. O nosso modelo de sociedade não suportará uma espera muito prolongada. Assim, considero que ao mesmo tempo que se mantém a fase de “resposta Covid-19” se inicie a fase de “recuperação Covid-19”. Os artigos que tenho escrito foram sempre técnico-científicos, sendo atualmente a primeira vez que escrevo um artigo de opinião. Tomei esta decisão porque estamos em “emergência nacional” e todos os dias penso o que posso fazer mais para ajudar. O conhecimento que tenho sobre BBS (Behavior Based Safety) pode talvez ajudar a sociedade portuguesa, as empresas e os trabalhadores quando a fase de recuperação iniciar, já que se mostra também essencial a continuidade da proteção de toda a sociedade. Apresento alguns princípios e regras básicas de gestão, de condições e de comportamentos para a fase da recuperação da economia. Começo com a apresentação de princípios básicos de “gestão”:
- Esta fase só pode iniciar quando o Senhor Presidente da República e Governo manifestarem visivelmente apoio, de forma clara e honesta. Devem assumir um conjunto de boas práticas, de ações e de comportamentos seguros, de forma visível, coerente e constante;
- Os ministros devem apresentar à sociedade portuguesa em que ponto a economia nacional se encontra e onde se pretende chegar. O alvo deve ser claro e deve ser conhecido de todos os portugueses;
- A recuperação da economia deve começar de forma gradual, por setores, comunicando periodicamente os resultados dessa recuperação à sociedade portuguesa;
- No processo de comunicação deve haver transparência e sentido de Estado. Se a sociedade portuguesa desconhece o que está a acontecer, irá sentir-se como peça de jogo e não assumirá o compromisso com a recuperação económica.
Regras básicas sobre “condições” da fase da recuperação da economia:
- Usar obrigatoriamente máscaras por parte de toda a população;
- Implementar a massificação da utilização de testes Covid-19;
- Rapidez para a identificação de casos suspeitos de Covid-19;
- Manter a emissão do certificado de isolamento profiláctico de 14 dias;
- Manter isolamento obrigatório de todos os casos confirmados (positivos);
- Utilizar equipamentos de proteção individual para os profissionais de saúde e grupos de risco;
- Disponibilizar desinfetantes eficazes em locais públicos;
- Desinfetar as ruas nas cidades / locais de maior risco de contágio.
Apresento alguns “comportamentos alvo” que irão reduzir o risco de exposição ao vírus para nós mesmos, para os nossos colegas de trabalho e para toda a sociedade portuguesa:
- Manter todas as medidas de distanciamento social (espaços públicos, trabalho presencial, regime de teletrabalho sempre que possível).
- Elaborar uma lista de comportamentos-alvo que se pretendam que ocorram com elevada frequência, sendo estes monitorizados, pelos pares, pelas empresas, pelas famílias e pelas forças de segurança. Devem ser descritos pela positiva, devem ser SMART, e a lista deve ser pequena de forma a que o todos os portugueses a consigam memorizar. Posso deixar aqui alguns exemplos para as empresas:
. Limpe e desinfete o seu posto de trabalho e as maçanetas da sua porta sempre no início e final de cada jornada de trabalho, se estiver sozinho, e, a cada pausa da jornada de trabalho (2 horas), se estiver acompanhado, ou ainda se houver alguma imprevisibilidade;
. Limpe e desinfete as ferramentas e equipamentos de trabalho sempre que as utilizes, no início e final de cada período de utilização;
. Mantenha sempre a distância social de 2,0 metros ou se espacialmente não for possível, mantenha a distância maior possível;
. Toque no rosto, olhos, nariz e boca somente com as mãos lavadas;
. Lave com frequência durante 20 segundos as mãos, seguindo todos os passos já interiorizados;
. Cumprimente com um aceno ou curvando a cabeça;
. Use o cotovelo na boca ou um lenço de papel sempre que espirre ou tussa. Mude de camisola ou descarte o lenço, o mais breve possível;
. Realize reuniões via video-conferência;
. Se observar um colega a não cumprir, execute de seguida um diálogo preventivo Covid-19 contextualizando-o, lembrando-o de possíveis antecedentes, consequências destes comportamentos-alvos, encaminhando-o ao compromisso. Se tiver um programa BBS Covid-19 implementado, registe a sua observação, seguindo as orientações da empresa.
- Definir uma linha de alarme de segurança-comportamental de Covid-19. A existência de uma repetida quantidade de comportamentos não-aceitáveis acima da linha de alarme, significa que as ações de prevenção ou proteção já existentes deverão ser revistas ou outras deverão ser implementadas, porque a qualquer momento pode haver contágio.
- Dar feedback à sociedade portuguesa ou aos trabalhadores, já que motiva a repetição dos comportamentos-alvos Covid-19. Seja o Governo ou Líderes empresariais devem descrever o contexto onde ocorreram os comportamentos, enumerar o que se pretende reforçar e as suas respetivas consequências NIC (negativas, imediatas e certas) ou PIC (positivas, imediatas e certas), para eles, famílias, Estado e sociedade portuguesa.
Estamos juntos na fase de “resposta” e estaremos juntos na fase de “recuperação”. Cada um no seu papel, não podemos baixar os braços, porque o futuro próximo precisa de todos: recuperar a economia e ao mesmo tempo mantermos a nossa proteção e as dos mais próximos, até chegar a vacina. A Europa poderá ajudar ao arranque, mas nunca irá resolver este problema, que para o bem de todos deverá ser visto como um desafio por todos os portugueses. Na nossa longa história e agora na “resposta” à Covid-19, Portugal já provou ser um grande país, vamos continuar a ser um exemplo na fase de "recuperação". Mãos à obra. Somos capazes! Pela pátria, estou totalmente disponível para ajudar...

